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Giovanna Fogolin · Nutricionista comportamental
Giovanna Fogolin · Nutricionista comportamental

Nutrição comportamental

Compulsão alimentar tem cura? O que a ciência diz sobre remissão e recaída

Giovanna FogolinNutricionista comportamental

Quem vive episódios de compulsão alimentar costuma chegar ao consultório com a mesma pergunta: isso passa? A resposta honesta usa a palavra que a própria pesquisa científica usa. Os estudos citados aqui não falam em "cura" como promessa. Eles falam em remissão, que é quando os episódios deixam de acontecer ou ficam abaixo do nível que caracteriza o transtorno, e em recaída, que é quando eles voltam.

Essa diferença de vocabulário muda a forma de encarar o tratamento: em vez de esperar um ponto final, a pessoa aprende a reconhecer gatilhos, a se alimentar com regularidade e a ter um plano para os momentos de risco. Se você quer entender primeiro como esse cuidado é organizado, a página sobre o tratamento da compulsão alimentar resume a proposta de atendimento.

O que é o transtorno de compulsão alimentar?

É um transtorno alimentar em que a pessoa tem episódios de comer grandes quantidades com sensação de perda de controle, pelo menos uma vez por semana durante três meses, sem comportamentos compensatórios regulares. Os episódios vêm com sinais como comer rápido, comer sem fome e sentir culpa depois.

O DSM-5-TR é a classificação padrão de transtornos mentais usada por profissionais de saúde mental nos Estados Unidos, mantida pela Associação Americana de Psiquiatria (APA). Em seu material para pacientes, a APA descreve o transtorno de compulsão alimentar como episódios de compulsão que acontecem uma vez por semana durante três meses e que estão associados à sensação de perda de controle.

Para que o episódio seja considerado compulsão, a APA lista características, das quais pelo menos três precisam estar presentes:

  • comer mais rápido do que o normal;
  • comer até se sentir desconfortavelmente cheio;
  • comer grandes quantidades sem estar com fome;
  • comer sozinho por vergonha da quantidade;
  • sentir nojo de si, tristeza ou muita culpa depois.

A diferença em relação à bulimia nervosa é que, na compulsão alimentar, não há comportamentos compensatórios para controlar o peso.

O transtorno não é raro. Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH), com base em uma pesquisa nacional feita entre 2001 e 2003, 2,8% dos adultos americanos tiveram transtorno de compulsão alimentar em algum momento da vida, e só 43,6% deles buscaram tratamento específico para o problema.

Quem fecha o diagnóstico é o médico, o psiquiatra ou o psicólogo. Reconhecer-se em parte dessa descrição não significa ter o transtorno. Significa que vale a pena conversar com um profissional e fazer uma avaliação.

A compulsão alimentar tem cura ou o certo é falar em remissão?

Os estudos citados aqui falam em remissão, não em cura. Em um estudo que acompanhou 90 pessoas por cerca de quatro anos após o tratamento, a maioria estava em remissão, mas parte teve recaída entre o primeiro e o quarto ano. Por isso, manter o resultado pede um plano de prevenção.

Um estudo sobre o longo prazo foi publicado em 2012 no British Journal of Psychiatry, por Anja Hilbert e colegas. Os pesquisadores reavaliaram 90 pessoas com transtorno de compulsão alimentar cerca de quatro anos depois do fim do tratamento, dentro de um ensaio randomizado que comparou duas psicoterapias: a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a psicoterapia interpessoal.

O estudo definiu remissão como compulsão em nível subclínico, ou seja, menos de quatro dias com episódios no mês anterior. A diferença entre os dois grupos não foi estatisticamente significativa.

No acompanhamento de cerca de quatro anos publicado no British Journal of Psychiatry (Hilbert e colegas, 2012), 72,0% das pessoas tratadas com TCC e 83,9% das tratadas com psicoterapia interpessoal estavam em remissão.

O mesmo trabalho mostra o outro lado: entre a avaliação de um ano e a de longo prazo, 6 pessoas do grupo da TCC (24,0%) e 3 do grupo da interpessoal (10,0%) tiveram recaída. Os autores registram recuperação substancial no longo prazo, mas também tendências de recaída em alguns desfechos.

Na prática, remissão é um desfecho real, e a recaída faz parte do percurso de algumas pessoas. Esses números vêm de um estudo específico e não preveem o resultado de ninguém. Por isso a diretriz do NICE inclui a prevenção de recaída, com atenção a riscos e gatilhos atuais e futuros, dentro do próprio tratamento.

Quais tratamentos têm evidência para compulsão alimentar?

A terapia cognitivo-comportamental voltada para transtornos alimentares tem a evidência mais forte, em formato de autoajuda guiada, grupo ou individual. Nutrição comportamental faz parte desse tratamento. Medicamentos podem ajudar, sempre com prescrição médica, mas a diretriz britânica NICE orienta não usá-los como tratamento único.

Terapia cognitivo-comportamental

A diretriz NG69 do NICE, instituto britânico que publica diretrizes clínicas, organiza o tratamento em etapas. Para adultos, a primeira oferta é um programa de autoajuda guiada focado em compulsão alimentar, baseado em materiais de TCC e acompanhado por sessões breves de apoio. Se essa opção não for aceitável, não for indicada ou não funcionar após quatro semanas, a recomendação é a TCC focada em transtornos alimentares em grupo. Quando o grupo não está disponível ou a pessoa não aceita, considera-se a TCC individual.

Uma meta-análise de 2019 publicada no Journal of Consulting and Clinical Psychology, que reuniu 81 ensaios randomizados, encontrou efeito de grande magnitude para a psicoterapia, formada em sua maioria por TCC. Nos ensaios que compararam os tratamentos com um grupo controle sem tratamento ativo, as taxas de abstinência (ficar sem episódios de compulsão) ao final do tratamento ficaram entre 45% e 54%; na psicoterapia, 53%. A APA também cita a psicoterapia interpessoal como opção que se mostrou eficaz.

Abordagem nutricional

A APA afirma que o tratamento da compulsão alimentar se concentra em normalizar o padrão alimentar e em regular as emoções. A diretriz do NICE traduz isso em ações práticas dentro da TCC: orientar refeições e lanches regulares para evitar sentir fome, montar um plano diário de alimentação e identificar os gatilhos dos episódios.

O nutricionista pode participar dessa parte do cuidado. O trabalho não é entregar uma dieta, e sim ajudar a pessoa a reconstruir uma rotina alimentar regular e a reconhecer os gatilhos dos episódios. Quando o caso pede, esse cuidado acontece junto com psicólogo, psiquiatra ou médico. O papel do nutricionista e do psicólogo no tratamento é detalhado em outro artigo desta série.

Medicamentos, sempre com prescrição médica

Nos Estados Unidos, a agência reguladora FDA aprovou a lisdexanfetamina para o transtorno de compulsão alimentar moderado a grave em adultos. Na meta-análise de 2019, ela mostrou efeito de magnitude média sobre os episódios e sobre a abstinência de compulsão em comparação com placebo, substância sem efeito usada para comparação. A APA menciona também o topiramato entre os medicamentos que podem ajudar.

A mesma meta-análise aponta falta de dados sobre o uso prolongado de medicamentos para esse transtorno. O NICE orienta não oferecer medicamento como tratamento único, e o NHS informa que antidepressivos podem ser associados à terapia ou à autoajuda, mas não devem ser o único tratamento.

O nutricionista não prescreve, não ajusta dose e não indica nem suspende medicamento. Se você usa ou pensa em usar algum remédio, converse com o médico que acompanha o seu caso.

A dieta restritiva pode piorar a compulsão alimentar?

Pode. Segundo as diretrizes, tentar emagrecer com restrição tende a desencadear novos episódios. A APA afirma que dietas que restringem calorias podem piorar a compulsão, e a diretriz do NICE orienta não tentar perder peso durante o tratamento, já que isso tende a desencadear episódios. A perda de peso, pode ser uma consequência com a melhora do quadro.

É comum imaginar que a saída para a compulsão é mais controle. As diretrizes apontam na direção oposta. A APA afirma que a perda de peso não é o objetivo principal do tratamento e que dietas que restringem calorias podem piorar a compulsão.

Na TCC individual, segundo o NICE, a orientação é aconselhar a pessoa a não tentar perder peso durante o tratamento, por exemplo fazendo dieta, porque isso provavelmente vai desencadear episódios de compulsão. O NHS repete a mesma ideia para o público: fazer dieta durante o tratamento pode dificultar a interrupção dos episódios.

A diretriz também orienta explicar que os tratamentos psicológicos para compulsão têm efeito limitado sobre o peso corporal e que emagrecer não é, por si só, uma meta da terapia. Para questões de peso, a própria diretriz remete às orientações específicas sobre obesidade. Se você reconhece um histórico de dietas seguidas de episódios, a página sobre os efeitos da dieta restritiva aprofunda o tema.

Se a compulsão alimentar vem acompanhada de sofrimento intenso, desesperança ou pensamentos de se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende pelo telefone 188, com ligação gratuita e funcionamento 24 horas. Em emergência médica, ligue para o SAMU no 192.

Perguntas frequentes

As dúvidas mais buscadas sobre compulsão alimentar envolvem qual profissional procurar, como saber se é o caso de avaliação, se existe remédio, se o problema pode voltar e se dieta ajuda. As respostas abaixo seguem as diretrizes do NICE, do NHS e da Associação Americana de Psiquiatria.

Qual médico trata compulsão alimentar?

O diagnóstico é feito por médico, psiquiatra ou psicólogo, e o tratamento costuma envolver mais de um profissional. A psicoterapia, principalmente a TCC, tem a evidência mais forte; o médico avalia se há indicação de medicamento; e o nutricionista trabalha a regularidade alimentar e pensamentos em relação a comida

Como saber se tenho compulsão alimentar?

Alguns sinais merecem avaliação: episódios em que você come grandes quantidades com sensação de perda de controle, comer rápido ou sem fome, comer sozinho por vergonha e sentir muita culpa depois. Só uma avaliação profissional confirma o diagnóstico, então o melhor passo é procurar um psicólogo, psiquiatra ou médico.

Existe remédio para compulsão alimentar?

Existem medicamentos estudados para o transtorno, como a lisdexanfetamina, topiramato e a bupropiona, aprovada nos Estados Unidos para casos moderados a graves em adultos. A diretriz do NICE orienta não usar medicamento como tratamento único. A indicação, a dose e o acompanhamento são sempre do médico.

A compulsão alimentar pode voltar depois do tratamento?

Pode. No estudo de acompanhamento de cerca de quatro anos publicado em 2012, parte das pessoas que estavam bem no primeiro ano teve recaída depois. Por isso a prevenção de recaída, com identificação de gatilhos e plano para momentos de risco, faz parte do tratamento recomendado pelo NICE.

Fazer dieta ajuda a controlar a compulsão?

As diretrizes indicam o contrário: o NICE orienta não tentar perder peso durante o tratamento, porque isso tende a desencadear episódios. O foco recomendado é comer com regularidade e trabalhar os gatilhos.

Se você se reconheceu nesses sinais e quer entender seu caso com calma, a consulta é um espaço para conversar sobre sua relação com a comida, presencialmente em Campinas ou online.

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Fontes

Este artigo se apoia em diretrizes clínicas do NICE e do NHS, no material da Associação Americana de Psiquiatria, em dados do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, em uma meta-análise de 81 ensaios randomizados, em um estudo de acompanhamento de quatro anos e em comunicado da FDA.

  1. American Psychiatric Association, What are Eating Disorders?: https://www.psychiatry.org/patients-families/eating-disorders/what-are-eating-disorders
  2. American Psychiatric Association, DSM-5-TR: https://www.psychiatry.org/psychiatrists/practice/dsm
  3. NICE, Eating disorders: recognition and treatment (NG69), 2017, atualizada em 2020: https://www.nice.org.uk/guidance/ng69/resources/eating-disorders-recognition-and-treatment-pdf-1837582159813
  4. NHS, Binge eating disorder: treatment: https://www.nhs.uk/mental-health/conditions/binge-eating/treatment/
  5. National Institute of Mental Health (NIMH), Eating Disorders statistics: https://www.nimh.nih.gov/health/statistics/eating-disorders
  6. Hilbert A. e colegas, Meta-analysis of the efficacy of psychological and medical treatments for binge-eating disorder, Journal of Consulting and Clinical Psychology, 2019 (versão em repositório da Universidade de Leipzig): https://ul.qucosa.de/api/qucosa%3A75713/attachment/ATT-0/
  7. Hilbert A. e colegas, Long-term efficacy of psychological treatments for binge eating disorder, British Journal of Psychiatry, 2012: https://www.cambridge.org/core/journals/the-british-journal-of-psychiatry/article/longterm-efficacy-of-psychological-treatments-for-binge-eating-disorder/62CB13193D0FA6FCD4E9990545A3BDB4
  8. U.S. Food and Drug Administration (FDA), FDA approves multiple generics of ADHD and BED treatment: https://www.fda.gov/drugs/news-events-human-drugs/fda-approves-multiple-generics-adhd-and-bed-treatment

Sobre o autor

Giovanna Fogolin

Nutricionista comportamental · CRN-3 70898

Nutricionista comportamental. Graduação em Nutrição pela PUC-Campinas, aprimoramento em Transtornos Alimentares pela USP e pós-graduação em Neurociência e Comportamento Alimentar pela PUC-Campinas.

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